quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Amor aos Pedaços

Juscelino e Janilene se conheceram num boteco, a beira da estrada. Eram bóias frias. Ele, dezenove anos, ela, dezessete. Foi amor à primeira vista. A primeira transa foi no meio do canavial. Os dois saíram de lá, arranhados, pelas folhas cortantes da planta. Dois meses depois estavam casados. Viviam os melhores dias de suas vidas. Cinco anos mais tarde, Juscelino apareceu com uma pequenina mancha avermelhada na perna, depois duas e três... Seis meses depois Janilene também apareceu com as manchas.

— Isso deve ser cobreiro. — disse Juscelino.

E para a benzedeira foram.

— Isso não é cobreiro. Não vou mexer nisso. — disse a benzedeira com ar de estranhamento. Já tinha visto muitas manchas vermelhas, mas iguais àquelas, nunca. — Vão procurar um médico. — disse ela.
Para uma benzedeira, mandar procurar um médico, é porque o negócio era sério.
Juscelino ficou furioso. Fazia círculos com caneta esferográfica, em torno das manchas, na tentativa de impedir que se alastrassem. Sem sucesso é claro.
Passado algum tempo as coisas começaram a piorar. Juscelino fazia o aparamento de suas unhas, quando seu dedo mindinho desprendeu-se do pé. Mas sabe como é, pessoa do interiorzão, não quer saber de médico. Colocou fumo no local e pronto. Um dedo a menos não faria falta. Ainda mais o do pé, que não servia nem para cutucar o nariz.

A situação ficou um pouco pior, quando Janilene, depois de colocar o brinco, viu ele cair junto com a orelha dentro da sua xícara de café. Mas o amor entre eles era tudo e não se abalavam com esses pequenos detalhes. O amor compensava estas pequeninas perdas. Qual o problema de ele não ter um dedinho, ela uma orelha e os dois um monte de manchas avermelhadas, que não paravam de se alastrar pelo corpo?
Certa noite, de luar prateado e estrelas brilhantes. O casal estava a fazer amor e em meio a movimentos frenéticos, de vai e vem, o falo de Juscelino desprendeu-se de seu corpo, fazendo aquele som característico de rolha saltando da garrafa, rolando para debaixo da cama. Aquilo acabou com Juscelino, que aos prantos, foi até a mercearia comprar um tubo de cola tudo. Pelo menos foi a única coisa que lhe veio à cabeça. Não queria se tornar um eunuco.

— Olha Jani! Acho que ficou melhor que antes, não ficou não? Só que eu vou ter que ficar com esta fita colante, aqui, até secar. — ele aproveitou e endireitou seu falo, que era meio tortuoso.
Na noite seguinte foram testar para ver se estava tudo bem. E não é que o negócio colou mesmo. Transaram bastante. Sua mulher aprovara cem por cento. Ainda mais que havia endireitado o dito pinto, quero dizer o dito cujo. No frenesi do sobe e desce. No sobe tudo bem. Foi no desce que uma coisa horrível aconteceu. Os peitos de Janilene ficaram nas mãos de Juscelino, que os apalpava com certa força. O desespero tomou conta da moça, que via nas mãos de seu marido, toda a sua feminilidade indo embora. Foi imediatamente consolada por ele, que mostrava a ela um tubo de cola tudo.

— Põem eles um pouquinho mais pra cima! — pediu Janilene ao marido.

— Um pouquinho?

— Tá bom vai, sobe eles, uns vinte e cinco centímetros acima do umbigo.

— Agora sim! Ó, ficou, jóinha, Jóinha, parece de modelo. — disse o agora satisfeito marido.

E foi assim durante muito tempo. Um pedaço caía ali, colava outro aqui. Às vezes passavam o tempo correndo atrás do cachorro de estimação, que insistia em enterrar no jardim, as partes que encontrava pelo chão da casa. O amor foi desgastando-se, desfazendo-se. Já não transavam mais com tanta frequencia. Na última vez que o pinto de Juscelino caiu, não teve como colar, não tinha mais lugar. Guardou num pote grande de palmito depois de uma luta ferrenha com seu cachorro. Um dos peitos de Janilene ficou fora de prumo. Tudo isso começou a minar a paciência do casal, que um certo dia entraram em conflito.

— Olha só... ... eu não aguento mais catar pedaços seus pela casa! Estou cansada! Farta de tudo isso! — esbravejava ela, enquanto pedacinhos de seus lábios, eram lançados no ar, misturados a gotículas de saliva e sangue.

— É? E você! Com esse peito torto... Esse nariz empinado...
— O nariz? Foi culpa sua! Você o colou virado para cima. Agora toda vez me afogo no chuveiro. Seu capado...
— Sua... sua... Seeem buuundaaaa!

Juscelino levantou a mão, com o dedo indicador em riste, e, num movimento brusco, o dedo se soltou. Saiu voando, acertando o olho de Janilene. Aos prantos, ela assoou o nariz e este saiu no lenço. Nervosa chutou com força, no meio das pernas de Juscelino. Seu pé saiu voando junto com o saco e as bolas dele. Nervoso e ensandecido Juscelino pulou, voando pra cima de Jani, mas suas pernas ficaram onde estavam. Somente seu tronco foi pra cima da moça, que gritou. O ato de abrir a boca, para desferir o grito, fez com que seu queixo caísse, deixando um enorme buraco em seu rosto. Rolaram no chão da sala, e foram deixando pedaços de seus corpos, espalhados por todo lugar, até se desfazerem por completo.

Uma semana depois...

— JÚ???... Janiii??????... Porta aberta? Não tem ninguém em casa? Iuhuuuuu!!!!! Tem alguém aqui? Nossa que sujeira é essa? Que cheiro de carniça. Há quanto tempo eu não venho aqui. — a mulher dava pulos por sobre montes do que pareciam ser, carne e ossos. — Deve ter sido você né? Seu cachorro inútil! Deve ter fuçado no lixo, e agora está aí, escondido, embaixo do sofá. — a mulher resmungava enqua
nto recolhia os restos de carne podre e um chumaço embaraçado de cabelos. Jogava-os na lata do lixo. — Onde será que eles foram? Argh!! Você matou algum bicho e trouxe para casa, né? Seu vira latas! — o cachorro roia um fêmur, sem dar atenção ao que a mulher falava.

6 comentários:

  1. KKKKKKKKK!!! Ai Gerson! To rindo muito! rsrsrsrs

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  2. Samanta Squillante Balione9 de setembro de 2011 06:11

    kkkkkkk....Vc. é ótimo....

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  3. Doideira, Gerson!! só agora pude curtir o seu conto. cara, é simplesmente genial!!

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  4. haha*hilário!

    Oi Gerson, dãng,,te achei!! <-.->

    Eu costumava ler teus textos quando eu estava no Recanto das Letras. Ri muito com aquele teu conto "O nascimento da besta".rs

    abração/

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  5. Muito louco! A parte do cola-tudo foi cruel! Hahahahahahaah! Parabéns! Tira só uma dúvida: eles contraíram hanseníase ou se tornaram zumbis?

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