sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Meu Cunhado é o Bicho




Cheguei em casa tarde da noite, cansado, depois de um dia de trabalho tenso. Parei meu carro na garagem e ao descer do veículo, um gato preto, assustado, cruzou a minha frente, parou por alguns segundos e me olhou fixamente com aqueles olhos brilhantes, parecia que queria me dizer algo. O que gatos poderiam dizer a nós, seres humanos, bom, um montão de coisas, pensei. Deixei pra lá. Entrei sem fazer muito barulho, minha irmã e meu cunhado estavam morando por uns tempos em casa. Passavam por momentos difíceis e eu tinha que ajudá-los, estavam desempregados há algum tempo, o aluguel atrasado estava virando uma bola de neve. Nunca fui muito com a cara do meu cunhado, afinal de contas, se cunhado fosse bom, não começava com “cu” e nem comia a minha irmã. Além do mais, o cara tinha muito pelo envolta da orelha e uns pelos enormes que saiam pelo nariz, sem falar na mania de roer as unhas. O cara sentava no sofá e enquanto assistia a tv roia as unhas e depois cuspia os pedacinhos no chão, mas enfim, o fato é que eles estavam juntos e eu me prontifiquei a ajudá-los. E apesar de tudo isso ele era muito prestativo, sempre me ajudava nos problemas da casa. Sempre ajudava a minha irmã em trabalhos voluntários, posso até dizer que meu cunhado é o cara. Voltando. Fui até a cozinha, belisquei uma gororoba na geladeira e tomei um copo d’água. Caminhei até a sala, e pensei em assistir tv, mas ao ver os pedacinhos de unha no chão, perto do sofá, desisti.

Subi as escadas lentamente, sem fazer barulho, não queria acordá-los. Passei bem devagar pela porta do quarto deles, e vi que ela estava encostada.   Ao passar, escutei sons estranhos, que não os habituais de um casal fazendo sexo, estranhei, mas fui para o meu quarto, sentei na cama para tirar os sapatos. Minha atenção ficou voltada ao barulho. Que porra de barulho é esse, pensei comigo. Decidi ir até lá dar uma espiadinha. Ao abrir a porta do quarto bem devagar, deparei-me com a cena mais horrenda que já vi na minha vida. Era surreal. Um bicho comia a minha irmã. Era inacreditável. Ela já estava sem um braço e sem uma perna, tinha o ventre rasgado. Ele tinha uma feição horrível, dentes e garras enormes que arrancavam nacos sangrentos de carne do corpo da minha irmã. Ele a devorava prazerosamente. Fiquei puto, onde estava meu cunhado na hora que minha irmã mais precisava dele. Acho que ele já estava morto. Sai de fininha e vim correndo até aqui na delegacia... Alguém tem que ir até lá...pelo amor de Deus!

— E como este “bicho” era? — perguntou o policial que anotava tudo o que o homem falava.

— Era grande... Enorme... Tinha pelos que saiam pela orelha e nariz, dentes muito grandes, unhas compridas...

— Tá bom, Me fala uma coisa... — o policial olhou para o delegado que estava sentado a mesa e sorriu com ar de deboche. — Ele tinha algum detalhe que chame a atenção?

— Como assim... Algum detalhe que chame a atenção? Você escutou o que eu falei? — disse o homem em tom de desespero.

— Você está me desacatando? — gritou o policial. — Como ele estava vestido?

— Não senhor... ele estava sem camisa... — o homem parou, seu rosto ficou mais branco do que já estava. — É o meu cunhado...

— Como é o seu cunhado? — o policial parou de escrever. — Primeiro o senhor disse que não gostava dele, depois disse que ele era o cara, e agora está dizendo que era ele?

O homem fechou os olhos e voltou até a cena na porta do quarto. — Sem camisa... a tatuagem nas costas... os pelos na orelha e no nariz... as unhas...

—- E então desembucha? O que tem seu cunhado?

O Homem suava e tremia de medo.

— Meu cunhado é o bicho!



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Matador de Monstros


                 — Ai bicha do céu! Não aguento mais correr! Olha aí... ai que ódio! Quebrou o saltinho do meu sapato...

         — Fecha essa boca  e corre, mona!

            — Esse cara tá correndo atrás da gente por quê? Não fizemos nada...

            — Você não, mas eu fiz...

               — Espera aí, amiga... Agora caiu meu brinco...

               — Deixa isso pra lá e vamos embora, rápido...

           — Ai loca! Você acha que eu vou deixar meu brinco pra trás. É cristal Swarovski...

        Um clarão iluminou a escuridão. De repente uma rede de material sintético envolveu o corpo do travesti, que se agachava para pegar o brinco.

            — Ahhhhhhh! O que é isso? Socorro mona! Ajude-me aqui! — a boneca gritava, quanto mais se mexia mais enroscada na rede ficava.

            A outra travesti parou, estava ofegante, mas voltou para ajudar a colega.

            — O que é que está acontecendo?  O que esse cara quer? O que você fez pra ele? — perguntou quase perdendo o ar ainda presa à rede.

            — Não é o que eu fiz... e sim... Ahhhh! O que... eU... SOUUUU... — disse o outro travesti, agora, com voz estranhamente cavernosa.  A bicha sofria uma mutação espantosa. A luz da lua cheia iluminava o ser contorcendo-se, dolorosamente, aos sons de ossos estralando, gemidos e roupas rasgando.

            — Monaaa do céuuuu! Queriiiiida! O que está acontecendo com você? Você está virando uma... borboleta? Tá rasgando esse vestidinho tubinho, lindo... Ahhhh! OLHA O QUE VOCÊ FEZ NO SAPATO!

            O travesti dobrara de tamanho. Sua amiga parou de falar quando percebeu o corpo peludo, as garras afiadas e grandes, a cara de cachorro raivoso e focinho enorme. Os brincos na cor rosa fluorescente continuaram presos às orelhas do, agora, lobisomem.

            — Bicha do céu tu és o Lobo Mau? Ai que fofinho que você ficou. Vou chamá-lo de Boomer. Sempre quis ter um cachorrinho com este nome. Aaa-doo-roo!

            O monstro rasgou a rede que prendia a amiga sem dar a mínima importância para o que a “moça” dizia e uivou. Uivou até conseguir arrancar a minúscula calcinha, que não rasgou na mutação e lhe apertava os testículos escondidos sob um pedaço de emplasto, agora muito mais avantajado do que antes.

            — Jeeesuuus! Benzadeus! Você nunca me falou disso...

            Da penumbra da noite uma silhueta alta e forte apareceu chamando a atenção do Monstro lupino. Vestia uma camiseta preta, dois cinturões cruzados no peito que escondiam a estampa em amarelo de uma carinha redonda e nervosa. Um dos cinturões estava carregado de estacas de madeira, no outro, balas de prata. O homem empunhava uma pistola grande e estranha, a arma  estava carregado com balas de prata, presa as costas carregava uma outra maior, com a qual lançara a rede.

            O lobisomem arrancou a calcinha e jogou. A peça intima, de tamanho diminuto, voou até parar aos pés de uma placa de propaganda, onde era anunciado um show do cantor Vando. Ergueu os braços e urrou mostrando toda sua força, chacoalhou a cabeça, e os brincos rosa fluorescentes brilharam a luz da lua cheia. Deu um passo por cima da “amiga” caída. Curiosa como só, a rapariga esticou o braço e com um puxão estúpido arrancou o emplasto que tapava a genitália do mostro.

            Por um instante o animal parou e envesgou seus olhos grandes e avermelhados, a dor foi tão intensa que ele gritou como um cachorro assustado, correu em círculos arrastando seu  traseiro no chão. A travesti percebeu que não fora uma boa ideia, segurava em uma das mãos o adesivo repleto de pelos negros. Quando o monstro parou e se virou para ela, rapidamente à boneca tentou esconder o emplasto, mas ele grudava de uma mão na outra.

            — Nossa Mona! — a bicha deu um sorriso amarelo. — Tu vai precisar de dias para fazer uma escova definitiva nestes pelos, querida. — disse tentando disfarçar o medo.

            O lobo soltou outro urro e com um chute arremessou a colega para longe como se fosse uma boneca, ela girou no ar e caiu a alguns metros à frente.

            — Finalmente encontrei você! — disse o homem.

            O lobisomem virou-se com os brincos a balançar. A marca de batom ainda era visível nos lábios do animal, a cor rosa combinava com os brincos e com a calcinha rasgada.

            — Você é a desgraça de seus ancestrais. E agora vou matá-lo.

O lobo urinava agachado para marcar seu território.

            — Isso é discriminação seu bofe nojento! — gritou o travesti a alguns metros dali enquanto levantava ajeitando as costas, que no intuito de ajudar a colega e aproveitando um momento de distração, correu e pulou nas costas do homem armado, no momento em que ele atirava com a pistola carregada com balas de prata.

O tranco o fez errar o tiro. O projétil passou de raspão na orelha do lobisomem arrancando-lhe um dos brincos e deixando-o com os pelos da orelha chamuscados. O lupino pulou de susto agarrando-se a um poste de iluminação.

Mesmo com o travesti agarrado em suas costas o matador conseguiu pegar o frasco de gás pimenta de um de seus cintos e disparar um jato diretamente nos olhos da boneca. Agora ela rolava no chão, desesperada, sujando todo o vestido tubinho, azul tampinha de caneta. Aquilo foi o “Ó” pra ela. Quando o homem se preparava para atirar novamente, dois morcegos enormes passaram por ele, desviando sua atenção. Uma nevoa branca surgiu mais à frente e os dois morcegos transformaram-se em belos vampiros. O mais velho tinha cabelos curtos e ajeitados com gel, usava vestimenta clássica de  vampiro, um tanto quanto cafona para a atualidade, camisa branca com babados e bordados, calça de tergal e capa de golas altas, pretas, a capa era forrada em cetim vermelho, o outro era de corpo muito bem definido, usava calça preta de couro, bem agarrada, que deixava um volume surreal entre suas pernas, casaco de couro preto e longo, sem camisa. Sua pela branca contrastava com a negra vestimenta. Que aberta mostrava seu abdômen definido, tinha cabelos longos, negros e sedosos. Uma beldade vampírica de tirar o fôlego.

            — Isso é alguma reunião da Ordem dos Monstros? — perguntou o matador.

            — Olá Vanderlei, nos encontramos novamente. — disse o vampiro mais velho, entre engasgos, pelo constrangimento da posição inusitada em que se encontrava o lobisomem, agarrado ao poste.

O animal deu mais uma vira volta no cano metálico. Executava ali, com extrema destreza, alguns movimentos de Pole Dance. Escorregou de cabeça para baixo e antes de bater com ela no chão, girou e pôs-se de pé. Em seguida pulou e parou ao lado do vampiro mais jovem. Deu uma olhadela, mordeu os lábios e revirou os olhos rubros imaginando cenas eróticas em meio a mordidas e arranhões.

            — Não esperava encontrar todos vocês aqui. — disse Vanderlei estranhando a cena.

            — Sempre aparecemos quando um de nossos amigos está precisando de ajuda. — o vampiro olhou para o lobo e pigarreou tirando-o de seus pensamentos. — Mas pelo visto quem vai precisar de ajuda é você.

            Vanderlei recarregava seu lançador de estacas calmamente, uma a uma. Mas os gritos do travesti que agora reclamava do vestido  manchado e rasgado, tirava sua concentração. Irritado e sem que a boneca histérica percebesse, ele tirou da cintura uma arma de choque e disparou sem olhar. A “moça” caiu no chão, tremelicando e espumando pela boca, devido ao choque violento. O delineador em seus olhos deixou manchas negras no rosto devido às lagrimas do choro involuntário que escorriam.

            — Pronto, esse ai vai dormir um pouco. — disse Vanderlei.

            Em seguida um aviso sonoro soou no ponto eletrônico em seu ouvido.

— Bem pessoal, não quero estragar a festa, mas minha ajuda chegou.

Sem que os monstros percebessem o ajudante de Vanderlei, Dimitry e sua careca reluzente, chegava por de trás. No momento em que ele disparava uma rede sobre o vampiro mais velho, Vanderlei atirava com seu lançador de estacas no jovial vampiro. O lobisomem empurrou o vampiro para tirá-lo da trajetória da estaca mortal e salvarndo-lhe a vida. O tiro acertou o lupino no culote fazendo-o pular de dor. O vampiro caiu e bateu com a boca no chão quebrando um dente.

— Você acha que vai me deter com essa rede de pesca? — disse o descendente de Nosferatus, o mais velho.

— Hahahahaha! Mas é claro que vou. Tente se mexer?

O vampiro ao tocar a rede sentiu um cheiro estranho. Cheiro de alho. A rede era confeccionada com micro partículas de extrato de alho, ao tentar desvencilhar-se da armadilha de cordame especial, ela soltava micro partículas da especiaria deixando o ar impregnado. O vampiro ficou imóvel.

— Desgraçado! — gritou o sangue suga branquelo, sufocado pelo cheiro de alho que queimava suas entranhas.

O lobisomem arrancou a estaca do Culote, a dor lancinante o fez urrar. O outro vampiro rastejava a procura da lasca do seu precioso dente, que quebrara no impacto com o chão não se importando com o que acontecia.

Vanderlei recarregava seu lançador de estacas quando, de repente, duas múmias pútridas e desengonçadas, surgiram juntando-se ao grupo monstruoso. Um ar de suspense e um cheiro de mofo, pairaram sobre todos. Mas algo desviou a atenção do grupo. O ranger de rodas enferrujadas ecoou pela noite. Da escuridão surgiu mais uma múmia, esta vinha de cadeira de rodas. Os monstros entreolharam-se e o vampiro mais velho, ainda preso na rede, perguntou sutilmente:

— De quem foi à idéia de chamar essa múmia paralítica?

As outras duas múmias se apontaram simultaneamente com as ataduras das mãos a balançar.

A cadeira parou e entre murmúrios e gemidos, o ser enfaixado tentava, nervosamente, desenroscar a atadura presa à roda.

— Isso é piada ou uma filmagem de filme de Terror B? — perguntou sarcasticamente Vanderlei, que em nenhum momento baixava sua arma.

— Sabe como é, temos um programa de cotas. — disse o vampiro preso na rede.

— Chega de palhaçada! Dimitry! Estacas flamejantes! — ordenou o caçador no micro comunicador em seu pulso.

— Pode deixar Vandeco! — respondeu Dimitry.

No segundo seguinte uma estaca incandescente iluminava a noite e acertava em cheio uma das múmias pelas costas. Ela se debatia desesperadamente. As ataduras apodrecidas incendiaram-se rapidamente. Angustiada por ver a amiga milenar e embalsamada, em chamas tentou ajudá-la, mas teve as mãos incendiadas, e o fogo alastrou-se rapidamente. Enquanto isso a múmia paralítica, nervosa com o nó cego que prendia seu braço à roda, agora entrava em pânico ao ver as múmias em chamas que se aproximavam, o bolo de fogo vinha em sua direção. O lobisomem estava ocupado, num movimento de contorcionismo, com a cabeça enfiada entre as patas, lambendo seu ferimento no culote.

O vampiro preso na rede tentava escapar a todo custo, mas toda vez que tocava na rede ela liberava o extrato de alho queimando suas mãos.

A múmia presa à cadeira de rodas conseguiu desprender a mão no ultimo instante, soltando um suspiro poeirento de alivio, que em seguida se tornou num grito de terror quando a cadeira de rodas enroscou em um buraco no chão, de lá não saindo mais. Uma pira de múmias incandescentes ardia em fogo intenso bem no meio da rua . O lobisomem, farto com o que acontecia, cuspiu um tufo de pelo ensanguentado e correu ate a rede rasgando-a e soltando o vampiro chefe.

A fera lupina levantou o focinho e farejou. Descobriu de onde vinham às estacas flamejantes e seguiu na sua direção.

Ao perceber a situação complicada em que se encontrava o vampiro mais velho transformou-se em morcego gigante novamente e alçou vôo.

— Ah não! Desta vez você não vai escapar. — disse Vanderlei.

Preparou rapidamente um cabo de aço preso a um pequeno arpão, acoplou na pistola, mirou e atirou. A seta cruzou alguns metros no ar, perfurou o abdômen do morcego, trespassando seu corpo. Preso ao cabo, o grande morcego pairava no ar batendo as asas freneticamente. Com um tranco forte o cabo escapou das mãos de Vanderlei, mas prendeu-se em dois fios de alta tenção provocando um curto circuito. A descarga elétrica seguiu pelo cabo ate atingir o morcego. A descarga foi tão forte que fez o monstro alado acender-se como um luminoso.

— Pai... Paie! Venha ver, é o sinal do Batman. — gritou um garoto que olhava pela janela de um prédio de apartamentos a dois quarteirões dali e via o morcego luminoso de asas abertas. — É o Batman!

Antes de o pai chegar o morcego havia se desintegrado por uma estaca certeira lançada por Vanderlei.

— Era só um sonho filho, volte a dormir. — o homem fechou a janela e saiu tropeçando nos brinquedos espalhados pelo chão. A escuridão da noite escondeu as cinzas do monstro alado.

Enquanto isso, a beldade vampirica, agora, com dor de dente, esgueirava-se entre as sombras, aproveitando-se da confusão para fugir e procurar um dentista.

Vanderlei chamou o ajudante pelo rádio, mas não obteve resposta, correu na direção do amigo, mas era tarde demais. O lobisomem terminava de arrancar o ultimo pedaço do pobre rapaz.

— Agora é sua vez... — gritou Vanderlei.

O monstro lançou a cabeça de Dimitry, que rolou como uma bola de boliche e parou aos pés de Vanderlei.

— Desgraçado!

O matador sacou de seu cinto algo curvo, de metal prateado e afiado. Lançou o artefato que girou no ar, mas este passou longe da fera lupina que caiu na gargalhada. O lobisomem caminhou em direção a Vanderlei, no trajeto, saltitou, sapateou e rodopiou com profunda leveza,  representando um trecho do ballet Pedro e o Lobo, parou a frente do homem pôs-se de pé mostrando todo seu tamanho e força, sentiu o vento bater em seu saco pelado devido a depilação forçada e preparou-se para dar o golpe fatal em Vanderlei. Em décimos de segundos seu brinco rosa fluorescente balançou pela ultima vez. Sua cabeça fora decepada pelo boomerang de prata lançado pelo matador de monstros, Vanderlei.

— Serviço concluído, pode mandar a equipe de limpeza, tem muita sujeira aqui... O que? Já pedi para não me chamar de Vandeco... Outra missão? Formatura da Liga Monstruosa? Ok! Mas vou precisar de outro ajudante... Não, espera! — Vanderlei olhou o corpo caído envolto no tecido azul, tampinha de caneta e teve uma ideia. Viu o grande potencial da rapariga. Um bom treinamento e sem salto alto daria um ótimo ajudante.

— Não precisa, acho que já achei meu ajudante.

sábado, 24 de março de 2012

Todos os fatos relatados nesta biografia são verdadeiros, alguns deles jamais devem ser repetidos por alguém, pois podem causar danos físicos e psicológicos irreversíveis.

Gerson Balione é paulistano nascido em janeiro de 1969, um ano muito sugestivo por sinal. Sua infância não foi normal. Gostava de coisas que os outros meninos da sua idade não gostavam. Não, não é boneca não. Desde pequeno, aficionado por filmes de terror e ficção científica, a ponto de tentar reviver seus peixinhos com choques elétricos e dissecar pássaros, lagartixas e outros animais, tinha um laboratório só seu, até o dia em que quase pôs fogo em sua casa. Já ficou dependurado na janela do andar de cima do sobrado onde morava, até ser resgatado pelo vizinho, e depois apanhar da irmã mais velha. Já ficou com o rosto manchado por ter verme. Fazia teatrinho de fantoches, onde criou, com seus amigos, uma sátira do desenho animado Super Vira lata. Nunca foi bom nos estudos, principalmente em português, quando sua professora, numa reunião de Pais e Mestres, disse para sua mãe: Seu filho é burro!, em alto e bom tom. Sua mãe saiu de lá arrasada e aos prantos. Na sua adolescência, era chamado pelos amigos da escola de Bozo, devido ao seu pé ser muito grande e desproporcional à sua idade. Sempre levou na esportiva, chegou a criar duas peças de teatro intituladas de Super Pesão e Super Pesão contra o Linguiça Atômica, onde ele, é claro, era o protagonista do super herói. Já saltou de um carro para outro em movimento e errou, caindo em plena avenida movimentada de São Paulo. Gostava dos filmes de Kung Fu que passavam na Record e quando seu pai não o deixava assistir, socava uns caixotes de madeira no fundo do quintal, até o dia em que quebrou o dedinho e abandonou esta modalidade de revolta. Apanhou de uma só vez de dez caras e um cachorro, dez foi o que ele conseguiu contar enquanto tomava socos e pontapés por todos os lados. O cachorro ele não tem certeza, alguns dizem que eram bem mais que dez e que não havia nenhum cachorro.

De dançarino de Break, passando por pseudopunk a metaleiro. Já tentou reviver o passado, mas ao dançar Break quase foi hospitalizado, tentou enfiar alfinetes na cara e pegou uma baita infecção, quis voltar a chacoalhar a cabeça ao ouvir heavy metal, mas uma lesão na terceira e quarta vértebras, adquiridas quando imitava a garota do fantástico na Praia Grande, onde acabou enterrando a cabeça na areia e no pescoço, o fez desistir. Hoje só ouve suas músicas prediletas sentadinho, sem performance corporal. Sempre foi piadista e criador de situações inusitadas da turma e da família. Fã incondicional de Star Wars, adora Monty Python. Para ele, TV Pirata foi o melhor programa de humor que existiu na TV brasileira, seu livro de cabeceira é O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Começou a tirar coisas de dentro da sua cabeça e pô-las no papel em meados de 2009. Foi quando, acometido por uma forte disenteria, passou quatro horas no banheiro, após a fase mais crítica das primeiras torções intestinais, resolveu escrever enquanto passava o tempo.

Seus textos são irreverentes, nonsense e repletos de humor negro. Tem contos publicados em duas antologias, O Grimoire dos Vampiros e UFO- Contos não Identificados, ambos pela editora Literata e no site do Recanto das letras (www.recantodasletras.com.br). Pretende lançar um livro solo antes que o mundo acabe. Tem consciência absoluta que o que escreve são Coisas de Uma Mente Demente.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Angels Air PE


Com o sucesso da parceria entre Pastor Elídeo Tour e Noé Cruzeiros, o conglomerado empresarial Pastor Elídeo comunica a compra de uma grande empresa aérea. Com problemas financeiros, está empresa vinha caindo, e agora, com a aplicação de vários milhões de dólares, e isso quer dizer VÁRIOS MILHÕES MESMO!, pelo Pastor Elídeo, nasce a maior empresa aérea do mundo: A Angels Air PE.

Com sua frota de 1315 aeronaves, sendo, 25 Airbus A380, novinhos em folha, e um monomotor, inserido a força, no pacote, a Angels Air PE, como será chamada a partir de agora, terá rotas para todo o globo terrestre.


Palavras do Pastor Elídeo, em entrevista para a revista “Fé de Mais”:

“Vou popularizar a aviação no planeta. Aleleuia! Em cada aeronave haverá um missionário obreiro fazendo pregações. Oh Glória! Nos A380 será possível participar de batismos em tanques adaptados totalmente seguros. E todas as aeromoças também serão obreiras. Glória! ALELUIA! Cada quinzena todos os vôos serão de libertação. Exorcismo em pleno ar. AMÉM! Oh Glória!”

Agora você poderá ir a Terra Santa com a Angels Air PE, sem escalas.

Voe com que entende do assunto, voe com os anjos, voe Angels Air PE.

*Passagens aéreas em 10 vezes sem juros, só com Celestcard. Não tem ainda? Adquira o seu aqui: http://gersonbalione.blogspot.com/2012/01/cartao-de-credito-e-celestcard.html

*Dízimo incluso na taxa de embarque.

*Consulte pacotes especiais para o Paraíso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Cruzeiro é com Pastor Elídeo Tour

Quer fazer um cruzeiro no carnaval?

Pastor Elídeo Tour tem o prazer de anunciar sua parceria com a Noé Cruzeiros, a mais nova empresa a participar do conglomerado empresarial Pastor Elídeo.

Com navios temáticos luxuosos, de 900 côvados, de comprimento, 100 côvados de largura e 90 de altura. A maior embarcação da atualidade. Desenvolvido pelos melhores engenheiros
navais do mundo. E um comandante com experiência divina. É capaz de enfrentar gigantescas ondas, fortes ventos e o melhor, movido a energia limpa, a FÉ.
Venha louvar dando a volta ao mundo. Show de lançamento do DVD CARNAGOSPEL, com ele, o showman, Pastor Elídeo.
Música gospel em ritmo de marchinha de carnaval.

Presença da Escola de Samba Gospel, Salvação Garantida.

Patrocínio: Desodorante ANGELUS
Só ele garante suas axilas limpas e cheirosas, por 40 dias e 40 noites – “Não mancha sua roupa”



Vai viajar de navio? Viaje com a Noé Cruzeiros.

“Esse não vira de jeito nenhum.”

Promoção de carnaval: Cruzeiro pela costa Italiana, em 24 vezes, no cartão de crédito Celestcard.

Pensou Cruzeiro, pensou Noé Cruzeiros.

Um produto Pastor Elídeo Tour

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cartão de Credito é Celestcard

Pastor Elídeo Bank apresenta:

Celestcard

Com ele você pode pagar suas compras, dar o Dízimo e garantir o seu cantinho lá no céu.
Tudo parcelado em até 10 vezes sem juros e ainda ganhar milhas para doar ao Pastor Elídeo em suas viagens missionárias para Cancun. – Glória?

Apertou este mês?
Use o rotativo – Aleluia? – Mas não esqueça da Oferta – Amém?

Cartão de crédito é Celestcard o resto é marca da Besta

Mais um produto do conglomerado de empresas, Pastor Elídeo
Um templo sempre perto de você.

* Este cartão não é aceito em inferninhos


O desodorante que você pediu a Deus.



Você fica incomodado com o suor em dias e noites de vigília?

A pessoa ao seu lado olha feio quando você levanta os braços para louvar?

Tem vergonha quando aparece aquela rodela de suor embaixo dos braços?


Chegou o desodorante que você pediu a Deus.

40 dias e 40 noites de proteção, sem manchar sua roupa.

Deliciosa fragrância.



Pastor Elídeo Cosméticos “Melhorando a sua vida”

Mais um produto do conglomerado de empresas Pastor Elídeo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Guilherme Tell ataca

Suposto Guilherme Tell ataca cidade da Suíça.

Na cidade de Carona, Suíça (o nome da cidade é devido ao fato dos moradores ofereceram carona a qualquer um, mesmo sendo estranho e mal encarado), divisa com Lugano, outra cidade peculiar (não associar ao Jogador de futebol, ele é Uruguaio). O fato é que está cidade vem sofrendo ataques de um homem que se auto-intitula Guilherme Tell. Ele vem atacando principalmente os animais da região, isso tem tirado o sono dos moradores da pacata cidade. Veja algumas fotos dos ataques:





Na ausência da flecha o atirador usou lápis
Clique na foto para ampliar




Sobre a vítima da foto abaixo, ainda não foi confirmado a origem do ataque:


Autoridades associaram a morte do pequeno alado aos ataques do Novo terrorista, "Guilherme Tell", mas alguns especialistas afirmam que foi suicídio, pois foi encontrado um bilhete dentro da aljava (saco para carregar flechas), onde o pequenino filho de Vênus, que passava férias na cidade, demonstrava angustia e aflição, pelo amor não correspondido de Psiquê, atirando uma flecha em si mesmo. Técnicos em balística dizem que isso seria impossível, mesmo para um ser mitológico. Exames residuográficos não detectaram nada nas mãos da figura de asas emplumadas, mas sim nos delicados pés do ser. Pequenos fiozinhos da mesma pena usada na flecha, encontravam-se sob a unha do dedinho do pé esquerdo. Uma investigação na residência da vítima descobriu que o pequeno vinha participando de treinamentos intensivos de contorcionismo com um professor, ex-integrante do Cirque du Solei, que está foragido. Uma foto do professor está sendo veiculada maciçamente. Isso confirmaria a presença de resíduos nos pés do cupido, que ao torcer as pernas para trás, conseguiu atirar a flecha nas próprias costas utilizando os pés.


Quem tiver informações sobre o professor, ex-Cirque du Solei, pode entrar em contato com as autoridades locais.

Foto do Professor contorcionista



As investigações vêm sendo atrapalhadas por simpatizastes de “Tellzinho”, como alguns, carinhosamente, gostam de chamá-lo. O lance de ser flechado está virando mania entre eles, fotos são postadas nas redes sociais, nas formas mais bizarras, como você pode ver abaixo:







Este usou o próprio corpo como flecha:


Uma gravação em fita K7, deixada na porta da delegacia, o Novo Terrorista promete: "Vou pegar todos de surpresa, com uma chuva de flechas, na feira de pecuária, dia 12 de janeiro de 2012, 13 horas em ponto" .

Muitas pessoas disseram visitar a feira no dia, mas que 12:45, no máximo, deixarão o local.

A produção de arcos e flechas, lanças, setas e todo material pontiagudo foram suspensos.

Pacotes de turismo para a região foram cancelados até tudo ser esclarecido e o suposto Guilherme Tell preso.


Médicos alertam:

Se você realmente quer tomar uma flechada ou qualquer outro objeto de ponta, esterilize-as bem ante de se usar.

Alto risco de infecção.

Postos de saúde estão distribuindo vacinas antitetânicas até tudo se acalmar.


Polícia adverte:

Qualquer pessoa portando arco e flecha, zarabatana, besta, balestra e outras, de qualquer tamanho ou material, serão consideradas perigosas; presas em flagrante; sem direito à fiança ou visita, seja esta última, de cunho intimo ou não.

Fotos retiradas da web.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico vol.0



Organização Ecoterrorista?
Xingú?
Usina Belo Monte?
Mortes e destruição da natureza?
Políticos corruptos?
Uma nova raça de lobisomens?
Para entender tudo isso baixe agora - Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico vol.0 - clique na imagem
e leia meu conto
Xingú - Quando as Forças se Unem


ESTE CONTO VOCÊ NÃO VAI ACHAR NADA ENGRAÇADO

Organização de Alfer Medeiros



Autores convidados: Alastair Dias, Amanda Reznor, Carolina Mancini, Celly Monteiro, Diego Alves, Gerson Balione, Ivandro Gore Godoy, Marcelo Augusto Claro, Mariana Albuquerque, Rosana Raven, Susy Ramone e Tânia Souza.

Revisão: Adriana Cabral


http://furialupina.blogspot.com/2011/12/baixe-gratuitamente-o-e-book-green.html

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Amor aos Pedaços

Juscelino e Janilene se conheceram num boteco, a beira da estrada. Eram bóias frias. Ele, dezenove anos, ela, dezessete. Foi amor à primeira vista. A primeira transa foi no meio do canavial. Os dois saíram de lá, arranhados, pelas folhas cortantes da planta. Dois meses depois estavam casados. Viviam os melhores dias de suas vidas. Cinco anos mais tarde, Juscelino apareceu com uma pequenina mancha avermelhada na perna, depois duas e três... Seis meses depois Janilene também apareceu com as manchas.

— Isso deve ser cobreiro. — disse Juscelino.

E para a benzedeira foram.

— Isso não é cobreiro. Não vou mexer nisso. — disse a benzedeira com ar de estranhamento. Já tinha visto muitas manchas vermelhas, mas iguais àquelas, nunca. — Vão procurar um médico. — disse ela.
Para uma benzedeira, mandar procurar um médico, é porque o negócio era sério.
Juscelino ficou furioso. Fazia círculos com caneta esferográfica, em torno das manchas, na tentativa de impedir que se alastrassem. Sem sucesso é claro.
Passado algum tempo as coisas começaram a piorar. Juscelino fazia o aparamento de suas unhas, quando seu dedo mindinho desprendeu-se do pé. Mas sabe como é, pessoa do interiorzão, não quer saber de médico. Colocou fumo no local e pronto. Um dedo a menos não faria falta. Ainda mais o do pé, que não servia nem para cutucar o nariz.

A situação ficou um pouco pior, quando Janilene, depois de colocar o brinco, viu ele cair junto com a orelha dentro da sua xícara de café. Mas o amor entre eles era tudo e não se abalavam com esses pequenos detalhes. O amor compensava estas pequeninas perdas. Qual o problema de ele não ter um dedinho, ela uma orelha e os dois um monte de manchas avermelhadas, que não paravam de se alastrar pelo corpo?
Certa noite, de luar prateado e estrelas brilhantes. O casal estava a fazer amor e em meio a movimentos frenéticos, de vai e vem, o falo de Juscelino desprendeu-se de seu corpo, fazendo aquele som característico de rolha saltando da garrafa, rolando para debaixo da cama. Aquilo acabou com Juscelino, que aos prantos, foi até a mercearia comprar um tubo de cola tudo. Pelo menos foi a única coisa que lhe veio à cabeça. Não queria se tornar um eunuco.

— Olha Jani! Acho que ficou melhor que antes, não ficou não? Só que eu vou ter que ficar com esta fita colante, aqui, até secar. — ele aproveitou e endireitou seu falo, que era meio tortuoso.
Na noite seguinte foram testar para ver se estava tudo bem. E não é que o negócio colou mesmo. Transaram bastante. Sua mulher aprovara cem por cento. Ainda mais que havia endireitado o dito pinto, quero dizer o dito cujo. No frenesi do sobe e desce. No sobe tudo bem. Foi no desce que uma coisa horrível aconteceu. Os peitos de Janilene ficaram nas mãos de Juscelino, que os apalpava com certa força. O desespero tomou conta da moça, que via nas mãos de seu marido, toda a sua feminilidade indo embora. Foi imediatamente consolada por ele, que mostrava a ela um tubo de cola tudo.

— Põem eles um pouquinho mais pra cima! — pediu Janilene ao marido.

— Um pouquinho?

— Tá bom vai, sobe eles, uns vinte e cinco centímetros acima do umbigo.

— Agora sim! Ó, ficou, jóinha, Jóinha, parece de modelo. — disse o agora satisfeito marido.

E foi assim durante muito tempo. Um pedaço caía ali, colava outro aqui. Às vezes passavam o tempo correndo atrás do cachorro de estimação, que insistia em enterrar no jardim, as partes que encontrava pelo chão da casa. O amor foi desgastando-se, desfazendo-se. Já não transavam mais com tanta frequencia. Na última vez que o pinto de Juscelino caiu, não teve como colar, não tinha mais lugar. Guardou num pote grande de palmito depois de uma luta ferrenha com seu cachorro. Um dos peitos de Janilene ficou fora de prumo. Tudo isso começou a minar a paciência do casal, que um certo dia entraram em conflito.

— Olha só... ... eu não aguento mais catar pedaços seus pela casa! Estou cansada! Farta de tudo isso! — esbravejava ela, enquanto pedacinhos de seus lábios, eram lançados no ar, misturados a gotículas de saliva e sangue.

— É? E você! Com esse peito torto... Esse nariz empinado...
— O nariz? Foi culpa sua! Você o colou virado para cima. Agora toda vez me afogo no chuveiro. Seu capado...
— Sua... sua... Seeem buuundaaaa!

Juscelino levantou a mão, com o dedo indicador em riste, e, num movimento brusco, o dedo se soltou. Saiu voando, acertando o olho de Janilene. Aos prantos, ela assoou o nariz e este saiu no lenço. Nervosa chutou com força, no meio das pernas de Juscelino. Seu pé saiu voando junto com o saco e as bolas dele. Nervoso e ensandecido Juscelino pulou, voando pra cima de Jani, mas suas pernas ficaram onde estavam. Somente seu tronco foi pra cima da moça, que gritou. O ato de abrir a boca, para desferir o grito, fez com que seu queixo caísse, deixando um enorme buraco em seu rosto. Rolaram no chão da sala, e foram deixando pedaços de seus corpos, espalhados por todo lugar, até se desfazerem por completo.

Uma semana depois...

— JÚ???... Janiii??????... Porta aberta? Não tem ninguém em casa? Iuhuuuuu!!!!! Tem alguém aqui? Nossa que sujeira é essa? Que cheiro de carniça. Há quanto tempo eu não venho aqui. — a mulher dava pulos por sobre montes do que pareciam ser, carne e ossos. — Deve ter sido você né? Seu cachorro inútil! Deve ter fuçado no lixo, e agora está aí, escondido, embaixo do sofá. — a mulher resmungava enqua
nto recolhia os restos de carne podre e um chumaço embaraçado de cabelos. Jogava-os na lata do lixo. — Onde será que eles foram? Argh!! Você matou algum bicho e trouxe para casa, né? Seu vira latas! — o cachorro roia um fêmur, sem dar atenção ao que a mulher falava.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Preço de uma Cagada

Este conto foi baseado em fatos reais vivenciados por um amigo. Alguns elementos foram inseridos ao conto para criar um clima mais tenso.



Boa leitura!




*****




— Pode tirar as calças, deitar de barriga pra cima e abrir as pernas... Nossa! Que assadura feia é essa? Você não usa cueca?
— Uso, mas sabe doutor, é uma longa história...
— Pode contar, você é meu último paciente mesmo.
— Então tá bom: Hoje seria um dia normal, como todos os outros. Acordei, tomei café, me troquei e fui trabalhar. Tive que fazer serviços lá no centro. Peguei o busão e fui. Até aí maravilha. Foi por volta das onze e meia que tudo começo.
Passei em frente a uma lanchonete, daquelas típicas do centro da cidade, suja, freqüentada por personagens estranhos, balconista com as unhas sujas, e salgadinhos que parecem estar na estufa há uma semana, mas mesmo assim, vi uma coisa que há tempos não via, bolovo.
— O senhor sabe o que é um bolovo, não sabe?
— Sim!
— O doutor teria coragem de comer um bolovo, numa lanchonete do centro, suja e mal cheirosa, onde o balconista tinha as unhas pretas de sujeira?
— Não!
— É, mas eu tive, e comi. Tá certo que não era o bolovo original, pois o bolovo original é só o ovo cozido, depois empanado e frito. O da lanchonete era metade de um ovo e carne moída, empanado e frito. Se eu fosse comparar um bolovo com alguma coisa, eu o compararia a uma granada de mão, acho que seria a comparação perfeita. O cara me serviu o bolovo e quando eu vi as unhas dele, franco que sou, falei: — O senhor podia pelo menos limpar estas unhas, não precisava nem cortá-las, mas pelo menos limpá-las.
— Você vai comer minhas unhas? — o balconista perguntou daquele jeito.
— Não! — respondi sem graça.
— E o bolinho você vai comer?
— Vou.
— Então não me encha o saco!
— Peguei o bolovo, sem pratinho mesmo, só no papel, que já estava transparente de tanta gordura e não falei nada. De repente meus olhos foram atraídos diretamente para uma barata que andava sobre o balcão. Eu olhava para ela e para o balconista ao mesmo tempo. Tive a impressão que ela olhava pra mim, querendo dizer alguma coisa, sei lá, do tipo — você tem certeza que vai comer este bolovo? Assustei-me com o murro que o balconista deu na barata sem olhar para ela, em seguida ele sorriu para mim mostrando os dentes. Foi aí que eu percebi que a sujeira não estava só nas unhas do balconista, mesmo assim, mordi o bolovo, só para relembrar os velhos tempos. Enquanto mastigava o pedaço do salgado via o homem limpar, com o pano de prato, os restos sobre o balcão, da agora amassada barata. Senti que o gosto do bolovo estava estranho, mas mesmo assim, dei outra mordida e mais outra. Enquanto mastigava lembrei que minha mãe toda vez reclamava ao meu pai, que a pia estava entupida.
— O bem! A pia entupiu outra vez. — dizia a minha mãe com aquela voz fina e irritante.
Meu pai saía do sofá e vinha reclamando até chegar na cozinha.
— Cacete mulher! Por que você tira esta merda de redinha do ralinho. Por isso que esta porra entope. Tem coca-cola?
— Tem.
— Então despeja no ralo que desentope.
— Bom. Pensei eu enquanto mastigava: Se a coca-cola desentope pia de cozinha, dissolve qualquer coisa no meu estômago. — Ai Brow, me vê uma coca, mas de garrafa de vidro.
— Caralho velho! Tu é fresco hein! Só tenho de lata. Vai querer ou não?
— Dá aí vai. Abri o refrigerante e bebi quase meia lata numa golada só. Puta merda, lembrei que outro dia passou no telejornal que, em hipótese alguma era para se colocar a boca diretamente na latinha de refrigerante, porque a quantidade de bactérias encontrada nela é assustadora. Já tinha ido. Terminei de comer o bolovo e de tomar a coca, pedi a conta.
— Seis paus! — o balconista disse.
Tirei uma nota de cinqüenta e dei para o balconista. Ele retirou o dedo indicador de dentro do ouvido, analisou o conteúdo retirado do interior do orifício auricular, incrível, com a mesma mão que ele usou para me dar o salgado, matar a barata e limpar a sujeira dos dentes e cutucar o ouvido, foi a que ele usou para pegar o dinheiro. Aquilo me embrulhou o estômago. Ele me devolveu o troco, coloquei o dinheiro no bolso da frente. E pensei: O que não mata engorda. E saí.
Tinha que ir até a Rua Líbero Badaró, no prédio da Prefeitura. No caminho algo estranho se moveu dentro da minha barriga. Nossa! Assim tão rápido? Deve ser só deslocamento de ar dentro das tripas. Entrei no prédio, peguei minha senha e fiquei esperando, estava lotado.
Outra vez senti aquele movimento nas entranhas da minha protuberância adiposa e desta vez fez barulho, pois uma senhora olhou pra mim. Apenas disfarcei. Aí veio outro. Sabe quando dá aquela vontade de peidar, só que em vez do peido sair ele volta, implode. Naquela altura do campeonato eu não podia peidar, não tinha confiança nenhuma no meu cu. Vai que em vez de vento vem merda. Achei melhor apertar com força. Veio outra torção. Acho que mais pessoas ouviram o barulho, pois olharam pra mim ao mesmo tempo. Comecei a suar frio e aquele rebuliço na barriga aumentou de intensidade. — Preciso achar um banheiro. As minhas mãos estavam molhadas de suor. Foi a porra do bolovo ou a merda da latinha? Ou os dois juntos? A coca-cola não foi tenho certeza. Não sei, só sei que eu saí procurando um banheiro. Pisei no pé da velha, chutei a bengala de um velho e depois o capacete de um motoboy.
— O campeão? — balançando o corpo para os lados, chamei o segurança que estava na entrada. — Onde tem um banheiro?
— Xiii, velho! O desse andar tá em manutenção, só três andares para cima. O elevador é ali.
— Valeu! Cheguei no elevador, apertei o botão e o cu ao mesmo tempo, quase caguei nas calças, foi por pouco. Acho que meu cu estava querendo armar uma cilada. O elevador não vinha, estava entrando em desespero. Comecei a fazer respiração cachorrinho e o suor escorrendo. Achei que iria funcionar, pois quando a mulher grávida vai dar a luz, em parto normal, funciona, e uma dor de barriga não pode ser pior que uma dor de parto. Será? Acho que é, pois a respiração cachorrinho de nada adiantou. Olhei para o lado e vi a escada de incêndio, estava em manutenção. — Cacete! Decidi, então, cronometrar o tempo entre uma torção intestinal e outra. Exatos um minuto e meio. — Ah! Será que da tempo de achar um banheiro em alguma lanchonete? Eu deveria voltar lá na lanchonete onde eu comi o maldito bolovo e cagar no banheiro dos caras, assim devolveria o bolovo e a coca, mas não daria tempo de chegar até lá. Saí do prédio da Prefeitura e caminhei. Ou errei na cronometragem ou a torção veio antes. Olhei no relógio, 45 segundos, fodeu. Nenhuma lanchonete a vista. A visão já estava ficando turva. — Puta que pariu, pensei, só faltava eu cagar em plena São Bento. Vi a entrada de um edifício, daqueles históricos ou melhor, pré-históricos. Olhei para cima e vi o nome do prédio, Edifício Plenitude. — Ah! Vai ser aqui mesmo. — Entrei, não vi ninguém na portaria, vai ver o porteiro foi ao banheiro dar uma cagada. Olhei para o outro lado e vi a porta que dava acesso à escada de incêndio. Entrei. Cacete e agora, subo ou desço, não sei por que, mas achei melhor descer. Foram três longos lances de escada. E puta merda, acho que nunca ninguém havia chegado ali. O cheiro de mofo era ruim. No meio do caminho outra torção. Não vai dar tempo! Pelo amor, como eu suava. Bem naquele lance a iluminação não funcionava. Tudo escuro. Mais uma torção e aquele barulho nas tripas.
Ah! Vou cagar aqui mesmo! Abaixei as calças e aí venho o dilema. Cago no degrau de cima ou no de baixo. Se cagar de costas para a escada, no degrau de cima, e for mole, vai escorrer e me sujar. Olhei os corrimãos, um de cada lado, vai ser virado para baixo. Segurei com as mãos no corrimão, aí quis inventar né, apoiei as pernas, uma de cada lado do corrimão. Fiquei, mais ou menos, na posição de mulher no ginecologista, com as pernas abertas no suporte. Assim evitaria qualquer possibilidade de me sujar nas próprias fezes. Já pensou se eu escorrego, caio e quebro o pescoço? Meu corpo caído com a cara enfiada na merda e o pescoço quebrado. Imaginei o CSI no caso. O senhor assiste CSI?
— Não dá tempo.
— Assista um dia, o doutor vai ver que legal que é. Enquanto eles vão observando o local dos acontecimentos vão imaginando as possíveis causas da morte. No meu caso a ajudante ia perguntar pro parceiro: — A cagada foi antes ou depois da morte? — Aí ela visualiza a cena mentalmente, eu pendurado no corrimão cagando. — Vou colher uma amostra para identificar a hora da cagada. — Depois ela passa aquele cotonete na merda e coloca dentro do saquinho zip e me vê escorregando e caindo. O barulho do estralo do meu pescoço quebrado encerra a cena. — Segurei com força. E aí então veio, veio que nem uma explosão. Acho que o Big Bang do universo deve ter sido uma bela de uma cagada, será que não?
— Não sei. Por que você acha?
— Ah! Sei lá, porque o mundo tá uma merda, acho que é por isso. Aí veio uma, duas, eu me agarrava ao corrimão com força, três, o suor descia e entrava no meu olho fazendo-o arder..
— Qual olho?
— O que eu enxergo né doutor. ...mas eu não podia limpar, não podia soltar as mãos do corrimão, outra torção, nessa acho que eu gemi, quarta vez. Ufa! Foi como se eu estivesse no espaço, flutuando. Estava aliviado. Um vento gelado bateu no meu cu e comecei a dar risadas...
— Por causa do vento no cu?
— Não, foi porque lembrei do nome do prédio, Edifício Plenitude. Era onde eu me encontrava naquela hora, na plenitude. A sensação era quase que “orgásmica”, Existe está palavra doutor?
— Não, você quis dizer orgástica.
— É, pode ser também. Esperei mais um pouco pra não ser pego de surpresa, torcendo para ninguém aparecer. Seria uma situação constrangedora. Saí da posição com muito cuidado, apesar do escuro, imaginei merda para todos os lados. E aí sim é que me vi em maus lençóis. Vou me limpar com o quê. — Engraçado essas coisas. Estamos com dor de barriga, sabemos que temos que nos limpar após a eliminação do bolo fecal, no meu caso acho que a consistência foi de suco, ou no máximo uma vitamina, e mesmo assim esquecemo-nos de levar algo para a devida limpeza da região. Pensei, vou esfregar a bunda no corrimão. Melhor não, vai que uma rebarba arranha o meu cu. Vai ser na meia então. Não detesto andar sem meia. Então vai ser com a cueca. Limpeza terminada, vesti minha calça e sai deixando para trás, minha cagada fétida e cremosa, junto com a cueca esmerdeada. Ah! Uma curiosidade, não sei se já aconteceu com o senhor, mas o cheiro da cagada era peculiar. Tinha cheiro de borracha. É sério. Outro dia meu sobrinho chegou em casa com uma bola de borracha e o cheiro era igualzinho. Por que será hein?. Para não levantar suspeitas, decidi subir três lances de escada, além do térreo, e descer de elevador. Sai do prédio e agradeci o porteiro, que agora estava lá. Mal sabia ele o que eu acabara de fazer lá na escada. Olhei para cima e li novamente o nome do prédio, Edifício Plenitude, suspirei aliviado e dirigi-me ao ponto de ônibus. — Quando fui pegar a grana, merda! Cadê o dinheiro. Só me faltava essa. Perdi o troco da lanchonete, quarenta e quatro reais. Vai ver, foi na hora que me pendurei no corrimão. Sem grana decidi voltar para casa na caminhada, não tenho cara de pau de pedir dinheiro na rua para os outros... Ué! Por que o senhor está rindo?
— Ah hahahahaha! Você entrou no prédio, cagou na escada de incêndio e depois diz que não tem cara de pau de pedir dinheiro? Ahahahahahaha!.
— Não sei qual é a graça, mas continuando. A pior coisa que existe acho que é usar calça jeans sem cueca. A costura grossa raspa na coxa pelo lado de dentro, perto da virilha e embaixo do saco. Aquilo vai te assando, assando, até ficar em carne viva. E andar do centro até minha casa só podia dar nisso, como o senhor pode verificar.
— Ô? Tá rido de novo por quê?
— Não, sabe que é?... estou fazendo as contas de quanto custou essa cagada.
— Aeee tá me tirando?
— Não! É sério, quer ver só? R$ 6,00 do salgado e o refrigerante... A cueca era nova?
— Mais ou menos, estava esgarçando no fundilho e o elástico estava folgado.
— Uma cueca boa custa R$ 27,00, mais ou menos, no seu caso ela valia uns R$ 10,00, R$ 44,00 que você perdeu, R$ 25,00 da pomada que vou te receitar, R$ 3,00 do pacotinho da gaze. Qual é o seu salário?
— 700, por quê?
— 700 divididos por trinta da 23.333333... dividido por 2, vai dar 11,66666..., vamos arredondar para R$ 12,00, que é meio dia de trabalho perdido. Pa,papapapapa... deu R$ 100,00..... hahahahahaha!
— O que é R$ 100,00?
— O preço da sua cagada hahahahaha. Sua sorte é que aqui é hospital público se não... hahahahaha.


Acho que ela também comeu um bolovo antes da entrevista



Corre procurar uma escada de incêndio...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Gerson Balione: TRIBUTO VAI LACRAIA

Gerson Balione: TRIBUTO VAI LACRAIA: "Neste Final de Semana! Você não pode perder! Dois Palcos simultâneos! Estoril - SP e Piscinão de Ramos - RJ 'Tribut..."

TRIBUTO VAI LACRAIA




Neste Final de Semana!



Você não pode perder!




Dois Palcos simultâneos!





Estoril - SP e Piscinão de Ramos - RJ









"Tributo Vai Lacraia"




Várias bandas: Restart interpreta Eguinha Pocotó - Fiuk canta Vai Lacraia - Cine interpretando A Lacraia Gostosa. Banda Calypso e Calcinha Preta interpretam Bacanal, ao vivo no palco Piscinão de Ramos. E muitas outras bandas!




Dois Palcos, muita música!


E muito mais!


MC Bengala, MC Franjinha, MC Fodeu, MC Clet, MC Ebola, MC Esfrega, MC Riguela, MC Balena, MC Fão, MC Nusite.




Participação especial de MC Anureto. Você vai Morrer!


E a mais esperada!


A Poposuda! A Rainha do Pancadão!







MC Ririca - A Mulher Alho.









"Tributo Vai Lacraia"


Você não pode perder!


Três da matina! Estoril - SP e Piscinão de Ramos - RJ


A madrugada vai Ferver!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Pinóquistein O Boneco da Ópera





Era uma vez, um carpinteiro fabricante de brinquedos chamado Geppetto. Um dia teve a idéia de criar um boneco, utilizando restos de outros, e de madeira velha. Um braço de um aqui, outro ali, uma perna mais comprida que a outra... Deixou o corpo oco e num pedaço de pinheiro, entalhou um coração, colocando-o dentro dele. Olhou-o deitado sobre a mesa, virou-o de bruços e viu que algo estava faltando. Com seu velho formão fez o último ajuste. Entalhou as nádegas. Para que ficasse o mais natural possível, colocou uma velha e frouxa rodinha, de um carrinho abandonado. Trabalhou dias e noites sem descansar.


— Maravilhoso! — exclamou o velho enquanto ajeitava os óculos no rosto. — Ficou um pouco torto, uma perna menor que a outra, mas ficou bom. — falava consigo mesmo. Cobriu o boneco com um pano e foi descansar.




Era madrugada e uma tempestade começou a cair. Trovões ribombavam. Relâmpagos desciam do céu como lanças. Um deles acertou uma árvore no quintal do velho carpinteiro. A faísca cruzou todo o quintal entrando pela janela, acertando em cheio o peito da mais nova criação de Geppetto. O pano que o cobria incendiou-se queimando uma parte do rosto do boneco.


A Tempestade cessou, e o novo brinquedo tremelicou, uma das pernas chacoalhou e ele acordou. Os olhos se abriram, para o chão desengonçado ele pulou e pela roda frouxa um vento soltou. Sua boca se abriu, ele sorriu e um gosto de cabo de guarda-chuva nela sentiu.


Caminhou todo desajeitado pela sala escura. Tropeçou numa caixa de ferramentas fazendo barulho. Geppetto que estava acordado por causa dos trovões, com o barulho levantou. E, pé, ante pé, até a sala, e com um porrete na mão Caminhou.


— Quem está aí? — perguntou. — Estou armado! Estou avisando!


Estava escuro. Outro relâmpago iluminou a noite, mostrando um vulto, tortuosamente, parado num dos cantos da sala. Geppetto então acendeu seu lampião e não acreditou quando viu sua obra prima em pé, a sua frente. Lágrimas brotaram em seus olhos. Caminhou até ele e viu seu rosto deformado pela queimadura.


— Meu filho! Você está vivo? — o velho então o abraçou, nunca sentira tamanha emoção.


No caminho até o quarto havia prateleiras cheias de bonecos e brinquedos. Um espelho chamou sua atenção. Curioso o boneco parou e viu seu reflexo. Viu o quão torto era e como seu rosto era feio. Não era igual aos que estavam inertes nas prateleiras. Virou-se para Geppetto e com um olhar furioso gritou. Correu desengonçadamente de volta para a sala, viu dependurados na parede uma mascara de pierrô e um casaco, pegou-os e saiu pela noite. Geppetto tentou ir atrás dele, mas sua idade avançada e a tempestade que voltara intensamente o impediram.


Aos prantos O velho Geppetto decidiu apagar o maldito lampião que o fazia lacrimejar.


— Para onde ele foi? Pobre coitado. O que será dele. — lamuriava o velho.


O menino de madeira correu, correu muito, escorregou e rolou barranco abaixo. Foi levado por uma forte enxurrada. Ficou desacordado e atolado na lama por três dias, até que despertou e com muito esforço do barro se desvencilhou. Caminhou mais quatro dias até chegar perto de um lago onde uma garotinha brincava na margem. Ela assustou-se com a figura torta, desequilibrou-se caindo dentro d’água. A pequena gritava por socorro, entre uma golada e outra de água barrenta.


O boneco ao perceber que algo estava errado com a menina, entrou na água para salvá-la, mais por mais que tentasse não conseguia afundar para buscá-la. Viu uma grande pedra na margem, e com cipós, amarrou-a a cintura, mas era tarde demais. A menina estava morta. Populares que ouviram os gritos da menina chegaram no momento em que a criatura saia de dentro do lago, com a menina nos braços. Acharam que o algoz era o lúgubre boneco e tentaram linchá-lo. Não teve outra opção se não fugir mais uma vez. Embrenhou-se na mata e caminhou até chegar a uma cabana, escondendo-se no celeiro, onde adormeceu. Após algumas horas de sono tranquilo, acordou com uma maravilhosa voz, que soava fortemente.


Olhou por uma fresta na parede de tábuas e viu um homem que cantava com voz belíssima, num tenor de arrepiar. Percebeu que o dono da belíssima voz era cego e começou a ajudá-lo nos afazeres domésticos e nas colheitas de batatas. Tudo sem que ele percebesse. Até que um dia sua roda frouxa o traiu.


— Quem está aí? — pergunto o tenor cego.




Caminhou tateando até o celeiro.


— Eu sabia que tinha alguém aqui. É você que vem me ajudando não é?


— Sim! — respondeu o boneco num sustenido sem igual.


— Venha, vamos entrar. Alguém com uma voz tão bela só pode ser bom. Deixe-me ver como você é.


O boneco aproximou-se, deixando que ele tocasse em seu rosto. Logo o homem percebeu que algo estava estranho. Duro como madeira e com o rosto deformado desistiu da idéia, achou melhor não saber como era seu visitante.


Moraram juntos por muito tempo. Tempo suficiente para a criação de Geppetto tornar-se um exímio cantor de óperas. O títere amadeirado estava fora, atrás de provisões para o professor e amigo de canto, quando ladrões apareceram para saquear a cabana e acabaram por encontrar o homem cego.


Torturaram-no até a morte. Quando o boneco chegou, encontrou a porta do casebre aberta e seu mestre caído no chão. Com um corte profundo em sua barriga, que deixava amostra suas tripas, esvaia-se em sangue enquanto sussurrava para seu pupilo.


— É você? Fuja! Não deixem que o vejam... — foram as últimas palavras do homem.


— Ora, ora. O que temos aqui? — perguntou com voz ameaçadora um dos ladrões. — Vamos pegá-lo, Vladinóleo.


— Sim Ladinóleo, deixa comigo.


O ladrão partiu para cima dele e os dois rolaram no chão. Com seu nariz avantajado e pontiagudo, perfurou um dos olhos de Ladinóleo.


— Um boneco de pau, que anda sem cordéis? Só pode ser feitiçaria! — disse Vladinóleo, já o agarrando por trás. — O chefe vai gostar muito disso.


Amarrado, foi jogado junto com as coisas que roubaram da cabana, no fundo da carroça.


— Olha só o que encontramos chefe. — disse Vladinóleo.


— Esta coisa furou meu olho. — resmungou Ladinóleo.


— E o que isso faz? — perguntou o chefe. — Cadê as cordas que o movimentam? — perguntou ele achando que se tratava de uma marionete. — Se isso for brincadeira arrancarei suas línguas.


— Claro que não chefe. Ele está vivo, de verdade. — disse Ladinóleo arrumando o tampão no olho vazado e empurrando o ser desengonçado.


— O que você sabe fazer? — perguntou o chefe. — O que você esconde atrás desta mascara? — puxou-a rudemente. — Ah! — assustou-se! — É melhor você ficar com ela.


O chefe dos ladrões olhou-o de cima a baixo. Viu que uma perna era mais curta que a outra, que os braços eram desiguais, sem falar na deformidade de seu rosto.


— Bem, uma coisa te digo. Só falta uma corcunda para você ficar completo. Todos riram.


— O que você sabe fazer? Anda desembucha?


Ele viu que não teria escapatória e achou melhor cooperar.


— Só sei cantar... — cantarolou ele em lá maior e com uma voz exuberante. — Ópera. — disse ele num tenor estupendo.


Todos se espantaram com a beleza da voz do menino boneco deformado. Naquele instante o chefe dos ladrões viu uma mina de ouro.


Começou a cantar em cabarés, depois passou para teatros pulguentos. A noticia de que existia


um boneco cantor de óperas se espalhou chamando atenção dos entendidos no assunto.


— Precisamos de um nome para ele. — disse o chefe.


— Que tal Pavarotti? — disse Ladinóleo.


— Não! É um nome sem expressão. — respondeu o chefe.


— Plácido! O que acham? — disse Vladinóleo.


— Não combina com ele. — retrucou o chefe. — Já sei, vai ser Pinóquistein O Boneco da Ópera.


Os dois ladrões entreolharam-se. Ladinóleo apenas com um olho. E torceram o nariz.


— Nossa chefe, o senhor é bom mesmo em dar nomes. Haja vista os nossos. — o outro só concordou balançando a cabeça.


E logo cartazes espalharam-se por toda acidade. Extra! Extra! Boneco de Pau Cantor de ópera... Hoje apresentação de Pinóquistein O Boneco da Ópera... Boneco cantor é a mais nova sensação da cidade...




Pinóquistein ficou famoso, mas quem ganhava com isso era a quadrilha de biltres. Vivia em regime de escravidão. Algumas pessoas achavam que ele era uma aberração, fruto de alguma feitiçaria. Sempre apareciam alguns malucos tentando invadir os teatros onde se apresentava. Certa vez ao entrar em seu camarim deparou-se com uma caixa cheia de cupins, sobre a mesa.


A única vez que ganhou alguma coisa foi após uma apresentação perfeita, inesquecível e colossal, onde ele encenou a ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo. Ganhou uma noite com uma prostituta vestida numa camisola azul, que o forçou a experimentar ópio, e garantiu que o transformaria em homem de verdade.




— É sua primeira vez? — perguntou a moça do baixo meretrício.


— Han? — sob o efeito do alucinógeno não entendera a pergunta.


— Perguntei se é sua primeira vez? — repetiu a rameira de azul.


— Claro que não! — gabou-se mentindo pela primeira vez.




De repente uma coisa estranha aconteceu, seu nariz cresceu. Com a cabeça entre as pernas da mulher começou a ter alucinações, pois viu a vulva dela se abrir e o grelo falar:


— Venha seu boneco de pau, gostoso. Venha para mim.


— Um grelo falante? — gritou ele assustado.


— Diga que eu sou a mulher mais bela do mundo. — pediu a de vida fácil.


— Você é... — exitou. — a mulher mais bela do mundo. — e seu nariz cresceu mais um pouco fazendo a mascara descolar de seu rosto e cair.


Sua face deformada assustou a mulher. Os dois tentaram se levantar, mas zonzos pelo ópio, caíram. A mulher caiu por cima dele e teve seu coração transpassado pelo nariz pontiagudo e grande de Pinóquistein.


Sem a mascara, com o nariz e seu rosto cobertos pelo sangue da meretriz, correu todo tortuoso pelos corredores do prostíbulo, assustando a todos que apareciam para ver o furdunço. Trombou com Ladinóleo e os dois rolaram pela escada abaixo. Ao levantar-se viu suas mãos sujas de sangue. Havia perfurado a jugular do larápio com seu nariz, agora lascado, levando-o a óbito.


— Assassino! — gritou uma prostituta, com seus enormes seios apoiados no guarda corpo da escada.


— Facínora! — gritou um cliente sem roupas com sua genitália a balançar.


Assustado Pinóquistein não teve alternativa se não fugir. Escondeu-se por alguns instantes num monte de feno, mas sua velha e frouxa rodinha, denunciou-o mais uma vez.


— Aqui! Ele está aqui! — gritavam os populares.


— O boneco assassino está aqui! — gritou um cocheiro.


Ele então, decidiu voltar para a casa do seu criador, o velho Geppetto. Um mês de fuga até chegar de onde saiu. O inverno rigoroso castigava a região. Escorraçado, humilhado e perseguido, chegou esbaforido na casa daquele que seria seu ente querido.


— Papaizinhoooo! — Cantarolou num soprano estridente. — Papaizinhoooo! Geppetto lixava desanimadamente algumas peças de madeira, quando escutou os chamados. Seu coração palpitou, a lixa largou e profundamente suspirou.


— É ele! Só pode ser!


O velho foi até a porta e viu o tortuoso boneco, correndo desengonçado em sua direção.




— Meu filho! — disse emocionado o senil Geppetto, abraçando-o. — venha vamos entrar. Está muito frio aqui fora.




Já dentro da casa, Pinóquistein olhou tudo ao seu redor.




— Ouvi histórias a seu respeito. Ficou famoso por cantar ópera. — disse o velho.


— Por que não foi atrás de mim? — perguntou ele num contralto harmonioso. — Por quê? Por que esta perna é mais curta do que esta? — indagava ainda no contralto. — Este braço é diferente deste outro aqui. E meu rosto queimado e desfigurado? Por que esta roda frouxa em meu traseiro? Por quê? Por quê? — e num baixo tenebroso ele cantou. — E alma, eu tenho uma?Geppetto não tinha as respostas para lhe dar.




Murmúrios de pessoas agitadas vinham de fora do casebre. Alguém gritou batendo à porta.




— Abra! Aqui é a polícia. Sabemos que você está aí! — gritou o homem da lei esmurrando a porta com força.


— Papaizinho, esconda-me, por favor. — suplicou Pinóquistein.




Geppetto pensou e lembrou-se da velha lareira. Nunca a usara por ter problemas com a fumaça.




— Rápido esconda-se aqui. Não se mexa e nem faça barulho. — pediu o velho.




Ele colocou alguns restos de madeira, camuflando muito bem Pinóquistein.




— Já vai. Já vou abrir... Calma! Assim o senhor vai derrubara minha porta... Pois não, em que poço ajudá-lo? — perguntou Geppetto.


— Estamos à procura de uma aberração assassina. Vimos ele correndo para esse lado. O senhor notou algo estranho? Uma criatura toda torta, braços disformes...


— Não senhor. — respondeu o velho assoando seu nariz avermelhado.


— Meus homens iram vasculhar as redondezas. O senhor importa-se?


— É claro que não. Fiquem a vontade.


— O senhor poderia me convidar para um conhaque? Está muito frio aqui fora.




Geppetto titubeou, mas acabou deixando o oficial entrar, assim, não levantaria suspeitas.




— Vejo que o senhor é carpinteiro. — deduziu o oficial ao ver as ferramentas e pedaços de madeira sobre a mesa.


— É, fabrico brinquedos. — disse ele sem tirar os olhos do oficial.


— Bem feitos por sinal, mas este falta uma roda. — disse o homem, segurando um carrinho nas mãos. — A propósito quem nós estamos procurando também é feito de madeira. É um assassino cruel. Matou várias pessoas. Muito bom cantor, mas assassino. Deve ser coisa de bruxa. Temos muitas aqui por estas bandas. Tem certeza que o senhor não viu nada? — perguntou o oficial brincando com um bilboquê. — Droga! Nunca acerto isso! O senhor vai ou não vai me servir um conhaque?


— Ah! Sim! Claro! Vou buscar.




Geppetto foi até a cozinha buscar os copos e o conhaque. Demorou um pouco, pois a bebida estava na adega.




— Está fazendo muito frio estes dias. — disse o oficial.




Geppetto não ouviu.




O oficial vasculhava tudo e achou atrás da mesa um recipiente com querosene. Pegou um pouco numa cumbuca e jogou na lareira ateando fogo logo em seguida.




— Não...! — Gritou Geppetto ao ver a lareira em chamas. —...Tenho alergia a fumaça...


— Desculpe, tomei a liberdade de acender sua lareira. Está muito frio.




A madeira seca estalava. Geppetto olhava fixamente para a lareira e via o balanço das chamas.




— Senhor, acabamos as buscas por aqui, Não encontramos nada. — disse outro policial que apareceu na porta.


— Muito bem! Obrigado pelo conhaque. Qual é o nome do senhor mesmo? — perguntou o oficial.


— Geppetto. — respondeu com lágrimas nos olhos.


— O senhor está chorando?


— Não... é apenas a fumaça, ela irrita meus olhos.




O oficial jogou o resto de conhaque que sobrara em seu copo na lareira, fazendo o fogo aumentar de intensidade. Uma pequena e frouxa rodinha, em chamas, veio rolando e parou aos pés do velho e agora tristonho Geppetto.


— É só a fumaça... É só a fumaça... — repetiu ele.


— Muito obrigado. — agradeceu o oficial.




Geppetto acenou sem muita vontade, fechou a porta e se virou para a lareira, fitando-a consternado.


Passaram-se alguns minutos e de repente o velho ouviu:


— Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto, ridi del duol che t'avvelena il cor!




Geppetto, sorridente, viu Pinóquistein sair de dentro da lareira, completamente em chamas, cantando o trecho da ópera Pagliacci com um machado na mão. O sorriso do velho transformou-se em pavor e desespero. O velho recuava, incrédulo a cada passo do boneco em sua direção.




— Por quê? Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto, ridi del duol che t'avvelena il cor! Este é por uma perna ser mais curta que a outra! — o boneco desferiu um golpe com o machado, acertando a barriga do pobre velho, que se ajoelhou com a dor. — Este é pelos meus braços que são diferentes! — o títere desceu o machado em um dos braços de Geppetto. — Este é por eu não ter alma! — o velho já estava mutilado e ensanguentado, mas ainda vivo. Pinóquistein parou por um segundo, olhou bem nos olhos lacrimejantes do velho e cantou mais uma vez.




— Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto, ridi del duol che t'avvelena il cor! E este e mais este, este outro. — Pinóquistein possuído, e em chamas, desferia uma seqüência de golpes com o machado, enquanto pegava fogo. — Toma este, e este, e mais um... — sangue jorrava por todos os lados. — E mais este... — ele levantou o machado acima de sua cabeça. — ...por ter colocado uma rodinha, velha e frouxa em meu traseiro! — e desferiu o último golpe, estraçalhando a cabeça do velho carpinteiro. O boneco em chamas debruçou sobre o corpo dilacerado, incendiando toda a casa.




— Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto, ridi del duol che t'avvelena il cor! — Cantou ele, até o último suspiro de sua vida sem alma.




Tradução: Ria Palhaço, ao seu amor quebrado, Ria da dor que envenena seu coração!



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